domingo, 23 de dezembro de 2007

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Capítulo 5

Luana costuma caminhar bem cedo todas as manhãs, antes de o sol começar a queimar sua pele morena, fruto da união do pai negro e da mãe branca. A garota, vaidosa, não deixa a beleza de lado nem por um segundo, apesar de uns quilinhos a mais, motivo pelo qual se exercita todos os dias.

O suor ainda escorria em seu rosto quando ela decidiu parar numa praça, próximo ao local onde costuma caminhar. Sua respiração estava ofegante. O coração ainda batia forte devido ao ritmo acelerado dos últimos minutos. O ar que entrava pelos pulmões de Luana tinha que dividir espaço com a fumaça de alcatrão da cannabis, que invadia a traquéia e entupia os alvéolos – filtro natural dos pulmões.

Seus músculos, há pouco explorados, começavam a relaxar, e o pensamento, longe, viajava no tempo. Luana não acha que maconha faça mal. Para ela, o fato de ser uma erva “natural” exime a droga dos problemas que afetam a saúde física e mental, como maior incidência de infecção nas vias pulmonares, bronquite crônica e probabilidade de câncer. Quanto ao cigarro de tabaco, que fuma numa média de cinco vezes por dia, ela tem mais consciência. O entorpecente quase não lhe proporciona prazer, isso está fazendo com que diminua o consumo por conta própria. Essa vontade de diminuir o consumo de nicotina foi inspirada pelo handball, praticado duas vezes por semana.

No caminho de casa, Luana põe os óculos escuros para esconder os olhos ao longo do trajeto. Chegando ao apartamento, ela toma banho e deita na cama para estudar.

Depois de revisar as últimas anotações feitas na aula do dia anterior e de ler algum trecho da apostila, ela vai ao computador e passa o resto da manhã conversando com amigos através de um programa de mensagens instantâneas. As horas passam à espera do almoço, quer dizer, à espera da “sesta”. Costumeiramente, uma amiga liga para Luana quase todos os dias depois do meio-dia, chamando-a para fumar um “baseado”.

A tarde surge no relógio em busca da noite. Às 18 horas, ela já está pronta para ir a faculdade. Para compor o visual, Luana usa muita maquiagem no rosto, cabelos perfeitamente escovados e arrumados. No antebraço vai uma pulseira dourada grossa, com pedras transparentes. Coloca uma sandália de salto alto da mesma cor da pulseira, uma saia jeans um pouco acima dos joelhos, um cinto dourado e uma blusa branca com detalhes da cor do cinto. Na bolsa branca, além do estojo, com lápis, caneta e borracha, e da maquiagem, vão três cigarros de maconha, dentro do maço do cigarro de tabaco.

Luana é uma das poucas privilegiadas deste país. Ela está em mais da metade do curso de jornalismo de uma faculdade particular, graças ao salário dos pais. Pelos dados de 2006, do Ministério da Educação, o Brasil possui pouco mais de 4 milhões de jovens matriculados nas universidades. Essa quantidade fica ainda mais irrisória quando se contabiliza o número de jovens com idade ideal para estar no ensino superior, ou seja, entre 18 e 23 anos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que esse número é de pouco mais de 20 milhões.

Fumar maconha e assistir à aula pode ser considerado um desafio pela ciência, já que a droga costuma ocasionar falta de atenção. Mas a ciência também explica que isso ocorre apenas quando se consome em doses altas. Consciente ou não disso, Luana costuma assistir às aulas após ter fumado doses baixas de marijuana, o suficiente para não “bater onda”, provocando apenas relaxamento e euforia. Para saber se o hábito a estava prejudicando, ela desenvolveu uma técnica. Toda vez que entra “fumada”, ela desenha uma estrela do lado da data da folha do caderno e, quando está em casa, compara com os escritos que não contêm o sinal. O que pôde perceber foi que sua mente ficava mais atenta e ágil para perguntas, aumentando sua participação na aula. Suas notas, pelo menos, não a deixam mentir. Ela costuma passar sempre direto, além de receber boas notas nos trabalhos da faculdade.

As teorias de Luana vão além. Ela acha que sua agilidade de raciocínio ao fumar maconha se repete em outras pessoas. “O que noto comigo, e com uma série de amigos que observei, é que o raciocínio fica mais rápido. Eu fico mais lerda na sala quando estou sem fumar”.

Não são apenas esses os efeitos percebidos por Luana. A criatividade também é melhorada. “Quando estou lúcida tenho várias idéias, mas elas não conseguem ser desenvolvidas, elas existem, mas não consigo externá-las. Já quando fumo maconha, me sinto mais criativa e com um estado de espírito muito melhor para produzir”.

Esse “auxílio” à criatividade não é apenas estimulado em trabalhos da faculdade ou na produção de matérias jornalísticas feitas para faculdade, mas também em provas. “Só consigo fazer prova onde precise desenvolver um raciocínio, se estiver muito ‘doida’, ‘fumada’. Nesses momentos, consigo ter um desempenho muito melhor do que quando estou sã”.

Mas usar maconha não é uma regra para todas as vezes em que faz uma avaliação. Ela reconhece que essa técnica não funciona bem na hora de fazer uma prova mais objetiva, em que é preciso memorizar certos conceitos. Nesses casos, sua memória recente se perde. Isso acontece pelo uso crônico da cannabis.

Na faculdade, ela usa maconha antes de entrar para assistir às aulas, no intervalo e depois, quando sai com os amigos de carro e vão fumar em Villas do Atlântico, local próximo à instituição onde estuda, na cidade de Lauro de Freitas. Desde os 17 anos, quando o consumo começou a aumentar, ela passou a usar a droga quase que diariamente, até chegar a um estágio em que fuma, no mínimo, três cigarros de maconha por dia. Houve épocas mais intensas que a atual, quando ela era acordada pelos amigos chamando-a para fumar na casa de alguém.


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//Continua no próximo capítulo

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Capítulo 4


Os anos foram passando e a adolescente virou adulta. Com a adolescência se foi boa parte do medo que Luana tinha de ser flagrada. A convivência com usuários lhe rendia bons pontos para consumo sem que ninguém a perturbasse. A área em torno da Faculdade de Jornalismo, da Universidade Federal da Bahia, é um desses pontos. Na verdade, toda a UFBA é conhecida pelo seu ambiente tolerável com relação ao uso de substâncias psicoativas. Não se sabe se essa tolerância é por opção, já que nem a polícia militar nem a civil podem intervir na área, considerada patrimônio federal.

Confiando nessa “paz”, Luana, então com 20 anos, estava lá, sentada, na beira da calçada, apenas apertando o baseado. Acompanhando-a estavam dois amigos, um homem e uma mulher. A erva triturada dava trabalho para entrar no tubo feito com seda de papel. Era como uma arma antiga, daquelas em que se coloca a pólvora no cano e a vai pressionando com uma vara. No caso, o que fazia a pressão para juntar a massa num menor espaço possível era o palito de fósforo.

O local, rodeado por floresta densa, inspirava a atitude. Parecia que ela estava numa rua deserta, sem movimento, onde um ou outro carro passava, onde um ou outro segurança circulava. Era dia, mas as nuvens tapavam a luz do sol, o que dava ao lugar um ar ainda mais bucólico, com ventos suaves, como num fim de tarde de inverno.

O cigarro que Luana estava preparando não havia nem alcançado a boca, quando sua concentração foi interrompida por um segurança revoltado. Ele pedia para que a audaciosa garota e seus amigos se retirassem do campus. Parecia que aquela cena estava ocorrendo no local pela primeira vez.

“Vocês, por favor, se retirem da Universidade”, disse o segurança.

Luana levantou contrariada. Ela não via no segurança nenhuma jurisprudência para exigir que eles se retirassem. Pela lei, apenas um policial civil ou militar poderia detê-la. Esse era o principal motivo pelo qual milhares de estudantes costumam escolher o local para relaxar sob o prazer da droga. Como um campus federal, a área não pode sofrer nenhuma interferência estadual. Apenas a Polícia Federal ou o exército podem intervir.

Levada presa, ela não poderia ser, mas expulsa da UFBA, sim. Conscientes disso, os três se levantaram batendo em retirada.

“Vamos, vamos, saiam daqui!”, esbravejava o segurança.

Todos entraram no carro do amigo de Luana e se dirigiram à saída principal. Quando chegaram ao local, o portão estava fechado. O segurança responsável pela abertura estava imóvel, apenas olhando para o carro, sem a pretensão de fazer qualquer movimento. A mesma coisa faziam os jovens expulsos. Ninguém falava, apenas esperavam uma ação.

“Abra o portão”, disse então Luana, esperando que fosse apenas uma distração do vigia.

“Não posso”.

“Por que?”, perguntaram do carro.

“Recebi ordens para que não deixasse vocês saírem, porque a polícia está vindo”.

“Por que isso, o que foi que fizemos?”

“Vocês estavam fumando maconha”.

“Abra isso agora ou então vou ligar para meu advogado e dizer que vocês estão me mantendo em cárcere privado, e, até onde eu sei, isso é seqüestro”, disse Luana já sem paciência.

Ela tentava desqualificar o segurança de qualquer forma e queria fazê-lo entender que eles não eram criminosos, apenas usuários de drogas. Para conseguir que o portão fosse aberto, Luana usou até mesmo seus conhecimentos sobre a lei, então, recentemente modificada.

“Segundo a lei 11.343/06, artigo 28, só é considerado criminoso, passível de reclusão na cadeia, aquele que traficar. Nós somos apenas usuários. O que temos aqui é para consumo próprio. Você como segurança deveria ter conhecimento disso”.

Em grande parte, ela estava certa. Presa ela não poderia ser. A nova lei de usuários de drogas no Brasil mantém apenas três tipos de sanções. Nenhuma delas inclui prisão. A diferença entre traficar e usar vai depender da natureza da droga, da quantidade da substância que esteja em mãos do apreendido, do local e das condições em que se desenvolveu a ação. Além disso, e no caso do nosso país, principalmente por isso, depende das condições sociais e pessoais dos envolvidos, bem como da conduta e dos antecedentes dos agentes policiais.

Por isso Luana estava tão segura. O máximo que poderia sofrer era uma advertência sobre os efeitos da droga; prestar serviço à comunidade; ou uma medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. O usuário ainda pode se negar a cumprir essas penas alternativas, recebendo no máximo uma multa por desobedecer a lei.

Há alguns anos ela e os amigos poderiam ser internados à força em clínicas de reabilitação. Hoje, dispõem de mais direitos, tendo apenas que comparecer à delegacia, assinar um termo e ir embora.

O discurso só terminou depois que o portão foi aberto.

“Esse povo está errado e ainda quer ter razão...” foram as últimas palavras ouvidas pelos jovens antes de saírem em direção à rua. O inconformado segurança se viu obrigado a abrir o portão diante de argumentos tão contundentes.

Do carro, que iniciara o movimento de partida, Luana proferiu as últimas palavras, encerrando o impasse.

“Você que é ousado. Não tem valor jurídico nenhum e quer botar queixo pra cima dos outros”.


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//Continua no próximo capítulo

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Capítulo 3


Os pais de Luana, casados há 28 anos, tiveram três filhos: uma menina com a mesma idade do casamento; um menino, de 23 anos; e Luana, com 21. A mãe, a mais velha do casal, tem 54 anos e trabalha no Diário Oficial. O pai, com 49 anos, é psicólogo e trabalha no setor de recursos humanos de um colégio conceituado de Salvador.

A filha caçula costuma dizer que eles são muito caretas e preconceituosos. O estilo tradicional dos dois vem da religião; o pai é evangélico e freqüentador assíduo da Igreja Batista. Laura absorveu a religião do marido logo que se casaram, mas ainda hoje não gosta e quase não freqüenta a igreja. Por parte do pai, Luana tem um tio e um primo que são pastores.

Apesar de não ter uma religião definida, ela costuma, uma vez ou outra, acompanhar o pai em um dos cultos. A iniciativa é muito mais para agradá-lo do que por vontade própria. Assim como a mãe o fez, Luana acha que, se tivesse que escolher uma religião, escolheria a do pai. A Bíblia é, para ela, o ensinamento de Cristo, e tudo o que está escrito, ou pelo menos quase tudo, é a absoluta verdade. O irmão já foi freqüentador assíduo da igreja, mas há algum tempo perdeu o gosto pela religião.


A pouca liberdade dispensada por Laura e Marcos acaba levando a caçula a fazer o que quer sem que os pais saibam. “Meu pai e minha mãe sempre pegam muito no meu pé. Eles não gostam que eu vá dormir fora de casa. Eu fico revoltada, porque perco vários ‘reggaes’ por causa disso. Dia de semana mesmo, eles não me deixam sair de casa para ir a nenhuma festa. Por isso, tudo que tenho que fazer, até hoje, faço escondido”.


Apesar dessa aparente rigidez, Marcos é um homem sentimental. Ele perdeu a mãe quando tinha 14 anos. Por ser muito apegado a ela, momentos ligados aos sentimentos familiares quase sempre representam choro. São datas como Dia dos Pais, das Mães e Natal, todas regadas a muitas lágrimas.


Passado o primeiro susto, aquele do dia em que a mãe descobriu maconha no armário, Luana começou a levar a coisa de uma maneira menos preocupada. Para ela, seus pais sabem que manteve o uso, já que, depois daquele primeiro flagra, a mãe encontrou a droga mais umas três vezes no guarda-roupa da filha.


“Eles vão acabar se acostumando com a idéia”, crê Luana.


Laura, apesar do aparente cansaço nessa luta, continua a resmungar, a dar conselhos e chega, até mesmo, a procurar reportagens sobre drogas e piercing – Luana tem um na língua – para que a filha leia. Mas o tom ameaçador vem diminuindo a cada nova descoberta.


“Da última vez, ela só fez perguntar: você ainda não parou?”.

A ousadia é tanta que ela cansa de chegar em casa “fumada”. Mas essa atitude não chega a comprometer sua sobriedade. Ela, muitas vezes, fuma antes de voltar da faculdade, porém não o suficiente para bater onda. Além disso, Luana procura disfarçar não falando muito.

“Chego em casa, converso e fico de boa, e ninguém fica sabendo que estou doidona”.


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// Continua no próximo capítulo

sábado, 8 de dezembro de 2007

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Capítulo 2


A cena descrita acima não foi o primeiro nem o último envolvimento dela com a maconha. As drogas, tanto as ilícitas como as lícitas, há muito tempo fazem parte do dia-a-dia da jovem, que hoje tem 21 anos.

Sua relação com substâncias psicoativas não se iniciara naquela fase, mas, sim, num momento em que seu corpo começava a ganhar formas de mulher. A menina, apelidada, pelo irmão e pelos colegas, de Topo Giggio, quando criança – por conta de uma orelha de abano inexistente –, teve um começo de adolescência, digamos, rebelde. Aos 13 anos, Luana tinha pressa em virar mulher. Como as garotas de sua idade, adorava ir a festas e shows sem os pais por perto. Para conseguir tal façanha, tinha de driblar a vigilância deles, que não a deixavam freqüentar festas consideradas para adultos.

Com essa idade, ela já enchia seus pulmões de nicotina, sempre nesses ambientes festivos, onde beber e fumar são regra e não exceção. Até hoje ela não largou o cigarro, assim como o álcool, que começou a consumir nessa época. Mas não só foram experimentos maléficos à saúde que permearam as histórias de sua adolescência. Um ano depois de começar a fumar, Luana conheceu um surfista, e eles começaram a namorar. O garoto, na mesma faixa etária que a sua, lhe ensinou, dentre outras coisas, aquilo que ele amava fazer: surfar.


Tempos depois, quando já havia terminado o namoro, ela enganava os pais dizendo que ia para escola, quando, na verdade, escondia debaixo da farda uma roupa apropriada para o surf. Luana demorava de se arrumar de propósito, para que os pais ficassem atrasados e não pudessem esperá-la. Para isso, ficava no espelho só fingindo que faltava pentear o cabelo. Quando eles deixavam o apartamento, a farda era retirada, e ela seguia para a praia com o vizinho.

Mas foi na época em que namorava com o surfista que Luana teve os primeiros contatos com drogas ilícitas. Ela não sentia nenhuma vontade de experimentar, e quando o namorado usava maconha ela ficava apenas observando, olhando o que ele fazia. Aos poucos, a convivência começou a pesar e a tentação de experimentar havia se tornado irresistível. Mas ela não tinha coragem de fazer aquilo na frente de ninguém, afinal, o medo de passar algum vexame era maior do que a vontade. Para resolver essa questão ela optou por experimentar sozinha, em casa. Conseguir a erva sem que o namorado ou qualquer outra pessoa soubesse era mais um desafio. Luana conhecia apenas uma pessoa de confiança, que morava em seu bairro e que poderia lhe ceder um pouco de marijuana.

A decisão de experimentar foi tomada depois de um veraneio passado na companhia do namorado, numa praia do Litoral Norte. Logo que voltou a Salvador, já com a cannabis em mãos, ela esperou os pais saírem para trabalhar e começou a fumar. Talvez a falta de experiência não tenha deixado o efeito agir da forma esperada e aquele dia passou igual a todos os outros.

Naquela mesma época, pouco tempo depois, ela voltou à casa de praia onde havia curtido suas férias. A volta, motivada por uma festa, foi crucial para um novo contato com a erva. Luana estava bêbada, e a mistura talvez tenha potencializado o efeito. A droga finalmente desencadeou a sensação esperada. As coisas passavam lentamente pela sua vista, como num filme em câmera lenta. Suas pernas começaram a suar e a tremer. A mistura das duas drogas – maconha e álcool – a deixou enjoada. O movimento circular das imagens diante dos seus olhos levou-a a vomitar. Hoje, como ela mesma diz, “criou resistência” e nunca mais vomitou.

Com 17 anos, ela começou a comprar a droga por conta própria e para uso habitual. Até então ela só usava maconha quando estava na roda de fumo com os amigos; aproveitava que o “beck” passava de mão em mão e dava uma “bicada”. Como alguém que cresce, começa a trabalhar e compra suas próprias coisas, ela não queria mais depender de ninguém. A vontade de consumir a cannabis na hora em que bem entendesse, da forma que quisesse, a levou a optar por comprar e guardá-la em casa.

O mesmo vizinho que tinha lhe dado a “massa” para experimentar como amostra grátis pela primeira vez, agora passou a fornecê-la. Talvez uma estratégia de marketing bem pensada, dando amostras gratuitamente para, depois que o consumidor adquirisse o hábito, poder cobrar.

“Considero normal meu consumo ter aumentado. Acho que o ser humano tem uma facilidade de se acostumar muito rápido com as coisas. Hoje eu uso, porque gosto e me dá muito prazer”.

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//Continua no próximo capítulo

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

“Uso porque gosto e me dá muito prazer”


Vou publicar em série um dos perfis que compõe o meu Trabalho de Conclusão de Curso. O livro-reportagem, produzido para o fim do curso, contém quatro perfis, com histórias de jovens de classe média e alta usuários de drogas ilícitas. Esse perfil que vou expor agora foi o mais elogiado pela banca e pelas pessoas que já tiveram a oportunidade de ler o livro. Espero que também gostem.




“Uso porque gosto e me dá muito prazer”



Por Léo Marques



A fechadura recebeu a chave como de costume, girando, precisamente, de forma a atravessar todos os obstáculos pontiagudos, num espaço milimetricamente destinado a ela. A porta não estava trancada, apenas fechada, por isso a chave não precisou fazer um giro de 360°. A garota que entrava tinha acabado de voltar de um dia de sol na praia. Seus longos e lisos cabelos, de tão escuros, pareciam tingidos. Os fios ainda estavam úmidos quando ela chegou ao apartamento.

No conjunto, lembrava uma índia. Os óculos escuros, de lentes exageradas, tapavam seus grandes olhos. Estes, por sua vez, se escondiam atrás de uma lente azul. A íris artificial lhe conferia um ar sensual, refrescante e charmoso, contrastando com o tom moreno de sua pele.

Seus pais estavam sentados no sofá, à esquerda da porta que acabara de se abrir. Até então, Luana não havia notado nada de diferente no ambiente. Os passos precisos a conduziram em direção ao quarto, mas ela teve de voltar quando uma voz a chamou na sala:

“Sente aqui, precisamos conversar com você”, disse sua mãe, de forma meio contida, meio nervosa.

Sem entender qual era o motivo da conversa, a garota sentou intrigada, porém estava calma para a situação que a esperava. O sofá em que se instalou ficava em frente àquele onde seus pais estavam. Marcos, o pai, balançava o pé sistematicamente, num movimento tão repetitivo que parecia mecânico.

Sem muita paciência, Luana pedia aos pais para que adiantassem o assunto da reunião fora de hora. Ela sentia-se incomodada com os resquícios do sal marinho em seu corpo. Sua pele, ao encostar no tecido do sofá, sofria uma sensação urticante. Laura, sua mãe, foi direta na pergunta, guardada há algum tempo.

“Que história é essa de você fumar maconha?”

Luana ficou sem reação. Sem resposta. Não esperava aquela pergunta naquela hora. Mas sua mãe não havia deixado espaço para respostas e foi logo emendando:

“Me disseram que você estava usando maconha. É verdade?”

A reação foi rápida e mentirosa.

“Não, mãe, é mentira desse povo. Eu nunca fumei maconha”.

Já esperando por essa resposta, Laura tirou das costas um pacote e, tentando arrancar a verdade da filha, perguntou:

“Então me responda o que significa isso? Quando me disseram eu não acreditei, mas, quando fui vasculhar seu armário, acabei encontrando esse pacote”.

Laura tinha essa mania. Vasculhava quase sempre o armário da filha, com a desculpa de que isso era apenas uma forma de cuidado. E era. Como caçula de dois irmãos, Luana se sentia como uma criança diante do cuidado dos pais e da atenção que eles lhe dispensavam. Mas a menina, que se considera a ovelha negra da família, não contribuiu muito para que fosse diferente, já que seu comportamento atípico sempre preocupou os familiares.

Dois anos antes, quando Luana tinha apenas 16, a mãe leu um relato no diário dela. Eram aventuras de carnaval. Os textos traziam detalhes de suas primeiras experiências com lança-perfume, típica droga do carnaval de Salvador. A mãe ficou desesperada diante do envolvimento da filha com a substância psicoativa. Não sabia o que fazer, que providência tomar. Para não sofrer nenhuma sanção, Luana inventou a história de que tinha escrito aquelas coisas apenas para testá-la. Laura não acreditou muito na conversa e contestou dizendo que Luana não iria escrever uma coisa que não tivesse vivenciado. Mas a mentira continuou a ser sustentada.

Aquela mesma cena parecia se repetir na sala da casa da garota então com 18 anos: sua mãe, nervosa e brava, discursava milhares de lições sobre a moral e os bons valores. Seus pais queriam a verdade de Luana. Queriam saber por que ela estava usando maconha. Sem idéia sobre o que dizer, apenas uma justificativa lhe surgiu à cabeça.

“Eu comprei só para experimentar”.

Talvez a velocidade dos acontecimentos não a tenha deixado pensar de uma forma mais lógica. Sua mãe, já sem paciência, lhe explicitou a grande quantidade de maconha presente no saco plástico.

“E você vai experimentar tudo isso?”

Ela não teve fala. Sua língua quieta estava e assim continuou. Laura exigia respostas verdadeiras:

“Onde você conseguiu essa droga, em que boca de fumo e quem te disse onde encontrar?”

Com medo do que os pais poderiam fazer, a menina se recusou a falar. Em sua mente confusa e atordoada, seu pai e sua mãe iriam até a boca de fumo ou procurariam encrenca com alguém perigoso.

A mãe, apesar de muito abalada com a situação, não chorou, apenas tremia e esbravejava, tentando entender o que se passava com a filha. Já a reação do pai foi completamente oposta: seus olhos, cheios de lágrimas, não agüentaram a pressão. Com a voz abafada e trêmula, a mãe encerrou a discussão.

“Não entendo por que você tem essa pré-disposição a gostar de drogas...”

Os pais apenas sabiam que ela bebia e fumava cigarro, e até hoje nem sonham saber que ela usa outras drogas.

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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Não mais como nossos pais...


Por Léo Marques


Nosso modelo de família vem passando por uma reestruturação ao longo dos séculos e continua em constante mutação. As mudanças mais profundas começaram a se dar com a industrialização da Europa, no século XIX.

Na ocasião, a vinda das famílias dos campos para as cidades transformou a forma como as pessoas, principalmente os homens, viam o lar. Essa migração fez com que a casa passasse a ser vista como um local a ser recebido pelas pessoas que se amava, um ambiente de descanso, de tranqüilidade.


Uma segunda grande mudança ocorreu a partir da 2ª Guerra Mundial. O baby boom, como ficou conhecido o fenômeno que se deu entre 1946 e 1964, foi responsável pela explosão demográfica na maioria dos países ocidentais, principalmente no Canadá, Estados Unidos, França e Inglaterra. O Brasil também viveu essa explosão, quando passou de 50 milhões para 75 milhões de habitantes, batendo um recorde de crescimento de 2,99% ao ano.


O modelo de família criado nos anos 50 pelos americanos, com grande quantidade de filhos e uma união estável e amorosa entre o casal, foi único durante todo o século XX. Até hoje, muitas pessoas acreditam que esse seja o melhor modelo a ser seguido. Essa estrutura familiar foi vendida para todo o mundo e fazia parte do “Sonho Americano”.

Essas famílias eram o núcleo do consumo que caracteriza o país até hoje como a nação que mais consome no mundo.

Outras mudanças começaram a aparecer e foram se acentuando a partir dos anos 70. A liberação sexual gerou um tipo de família que se tornou cada vez mais comum: filhos com pais separados. Isso ocorreu pela grande quantidade de filhos indesejados tido por casais que não eram casados, nem pretendia seguir esse caminho.

A igualdade dos sexos deu a mulher o livre arbítrio e poder econômico para que pudesse ter seus filhos sozinha. Havia também, mais evidente nos anos 90, pais que decidiam ter apenas um filho, e cada vez mais tarde, principalmente nos grandes centros urbanos.

Com isso, pode-se constatar que as motivações econômicas conduziram novamente à construção de um novo modelo de família. Fenômeno ocorrido também no inicio da era da industrialização européia, como já relatado nas primeiras linhas.

Hoje podemos ver um novo tipo de modelo familiar que se forma, cada vez mais comum em países desenvolvidos ocidental: filhos de casais homossexuais. Esse tipo de família lembra em muito características do modelo heterossexual, mas com mudanças obvias nessa relação.

As transformações nas estruturas familiares vão continuar em mutação por muitos anos. O século XX abrigou, em um curto espaço de tempo, as mudanças mais radicais do último milênio, ainda em decorrência. O que nos aguardará nesses próximos 100 anos? Talvez não sejamos como Belchior previa, talvez não sejamos como nossos pais.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Cidade turística. Quem foi que nos iludiu?



Por Léo Marques

Alguém, por favor, poderia avisar a Prefeitura, ao Governo do Estado e a todos os outros políticos de Salvador que ela é uma cidade turística? Eu acho que há muitos anos eles esqueceram desse pequeno detalhe. Andar pelo Centro Histórico, pela orla atlântica ou pela Barra é se deparar, constantemente, com uma paisagem totalmente degradada.

Vou começar com os dois pontos turísticos mais famosos de Salvador. Situados na chamada Cidade Baixa, o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda dividem suas imponências com casarões completamente abandonados. No local, com imensa concentração de mendigos, circulam por dia centenas de pessoas que vêm à capital baiana atraídas pelo seu conjunto arquitetônico histórico, pela cultura vibrante e pela orla.

Porém, a arquitetura antiga da cidade está caindo aos pedaços, com fachadas sujas, paredes e janelas quebradas, estruturas abaladas e muitas com pavimentos destruídos. Ocupando esses casarões estão mendigos, sem-tetos, traficantes e ladrões, pessoas que em nada ajudam na imagem que Salvador pretende ter de maior destino turístico do Brasil.

Antes que me joguem pedras, creio que a retirada dessas pessoas seja crucial para aquele trecho da cidade. Só assim ela poderá ser circulada de maneira mais tranqüila, ser contemplada em suas diversas fachadas e explorada de forma devida, cuidando e preservando esse patrimônio que é nosso, é da humanidade.

Esses casarões, colados uns nos outros, embaixo do Elevador Lacerda e em frente ao Mercado Modelo, poderiam ser desapropriados e transformados em pousadas, cafés, restaurantes e bares. Seria a Riviera Baiana. Quem conhece Salvador sabe que a beleza fascinante da Baía de Todos os Santos propiciaria, junto com esse cenário que vislumbrei, um ambiente capaz de atrair milhões de turistas.

Se não cuidarmos do nosso patrimônio continuaremos recebendo minguados 5 milhões de turistas por ano. Esses números, que incluem o Brasil inteiro, dado as nossas riquezas naturais, paisagísticas, históricas e de lazer, é pífio. A Espanha, por exemplo, recebe por ano quase 50 milhões de turistas. A França recebe 60 milhões. E olhe que somos um país de dimensão continental.

Mas se eu, que sou um cidadão da terra, acostumado com a cidade, fico horrorizado quando passo por aquela região, imagine para quem vem de fora, acostumado a países que cuidam de seu patrimônio, com ruas limpas, bem iluminadas, seguras e preservadas. Aqui você não vai encontrar nada disso.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A “nova” ditadura


Por Léo Marques


Desde a Grécia antiga, os Deuses vêm sendo retratados com corpos perfeitos, com músculos precisamente definidos. Essa aparência musculosa lhes dava um equilíbrio não só do corpo, mas do seu poder espiritual, visto que representavam a religião da época. Já o corpo feminino ao longo da história adquiriu várias formas, mas o masculino quase sempre foi o mesmo dentro da cultural ocidental.

Ao longo desses milhares de anos o homem buscou a perfeição anatômica nas artes que produzia e isso se refletiu nas pessoas comuns do ocidente nos últimos 30 anos do século XX. Só com o modernismo é que essa forma de representação tomou outros rumos. Foram criados novos conceitos, novas técnicas e a arte adquiriu outra intencionalidade, já que a representação perfeita do ser humano e da natureza já era feita pela própria fotografia.

Corpo perfeito é significado de boa saúde. É dessa forma que nosso inconsciente trabalha, apesar de nem sempre ser assim. Para alcançar essa bela forma muitas pessoas sacrificam até a própria saúde usando de artifícios como anabolizantes, hormônios de crescimento ou remédios para emagrecer. É a ditadura do corpo.

O Rio de Janeiro é o nosso melhor exemplo. Lá, essa ditadura é muito presente entre os jovens. Aqueles que não fazem parte dessa legião de “modelos” sofrem algum tipo de discriminação por parte da sociedade que cultua o corpo “perfeito”. As praias cariocas são as vitrines dessa moda que, na verdade, não nasceu a pouco tempo, ela começou a surgir com a arte grega para representar seus Deuses.

Na história da mulher ocidental o significado de corpo saudável já foi ser gordinha, ser baixinha, não ter seios grandes, tudo isso muito presente nas pinturas e esculturas que retratavam as modelos da época. Hoje, o que vemos é justamente o contrário, a valorização da magreza na mulher é tão grande que chega a desencadear doenças como bulimia nervosa, gerando, entre outros fatores, fraqueza nos ossos e depressão.

As academias de ginástica estão repletas de clientes. O Brasil só perde em números para os americanos. O Homo sapiens sapiens ocidental sempre valorizou o formato do corpo e sempre irá valorizar, afinal, em nossa sociedade "futilista", costumamos julgar primeiro a forma, depois o conteúdo.

domingo, 11 de novembro de 2007

Quem tem o pé no terreiro são os gaúchos


Por Léo Marques

A religião existe para o ser humano desde quando houve as primeiras tentativas de entender o mundo. Sem ter explicação para determinados fenômenos, o homem atribuiu a uma força divina, sobrenatural, todo e qualquer evento da natureza. Mas de todas as religiões, entretanto, nenhuma foi tão quanto ou mais perversa que a Católica Apostólica Romana.

As tantas provas forjadas na inquisição, as cruzadas rumo a uma dominação religiosa desenfreada mataram milhões de pessoas na Europa, em outros países do Ocidente e até no Oriente Médio. Ela foi a mais intolerante de todas a religiões.

O Brasil, mesmo não tendo alcançado esse período obscuro da história chamado Idade Média ou Idade das Trevas, sofreu com essa intolerância religiosa. A cruzada realizada no país em torno da religião vinda da África pode ser considerado uma das tantas formas de opressão executados em nome da Biblía. Nos últimos anos, as religiões ditas protestantes têm reforçado essa ignorância referente a outras crenças.

Hoje a cultura do candomblé é bastante presente em várias partes do país, mas é visivelmente destacada na Bahia e no Rio de Janeiro, locais que mais receberam negros escravos, no período da colonização portuguesa.

Apesar dessa dado histórico incontestável, o censo de 2000 revelou um dado absurdo. O Rio Grande do Sul, colonizado predominantemente por portuguêses, alemães e italianos, surpreendeu com a declaração de 121.180 pessoas praticantes do Candomblé ou Umbanda. Na Bahia esse número tiveram irrisórios 21.733 assumidamente praticantes das religiões originárias da África. Somando todos os estados do Nordeste (50.642) não chegam nem a metade dos gaúchos.

A única explicação que encontro para esse resultado é a baixa escolaridade da região. O Nordeste concentra grande evasão escolar e baixa qualidade de ensino, sendo uma das áreas mais pobres do país, onde a desigualdade é mais acentuada. Essa baixa escolaridade afeta o cidadão no sentido de assumir e compreender suas crenças e religiosidades, ao subestimar e até renegar sua história e uma memória coletiva.

Os números do Rio de Janeiro, compreensíveis, com 182.919 comprovam isso, despontando como o estado com maior número de praticantes do Candomblé/ Umbanda. Até mesmo um estado cosmopolita como São Paulo assume ter mais praticantes dessa religião do que a Bahia.

O Sudeste, que possui uma escolaridade mais elevada, despontou na frente com 320.020, um valor seis vezes maior do que o do Nordeste. Existe aí, por tanto, um claro receio de assumir sua identidade religiosa por parte do povo nordestino, muitas vezes levados por uma cultura do catolicismo. Isso acaba desvalorizando a identidade nacional, com um povo que esconde sua história, mitos, ritos e os seus significados.

Pode existir uma outra alternativa, essa uma candidata forte também a ser verdadeira. A religião, na Bahia, pelo menos em Salvador, é bastante complexa e misturada. Muitos "católicos" deixam suas flores para Iemanjá no dia 2 de fevereiro e fazem caruru todo ano para São Cosme e São Damião.

É preciso que o país assuma com orgulho suas raízes e cultura. Cada um tem o livre arbítrio para escolher o que quer neste país. Então devemos nos valer disso e não deixar que uma ou outra religião se sobreponha aquilo que acreditamos, afinal, se você tem fé numa religião não tem porque ter vergonha dela.

domingo, 28 de outubro de 2007

A política das CPIs



Por Léo Marques

E a história é a mesma. É engraçado como as coisas se repetem no Brasil e todos cometem o mesmo erro, levados pela ineficiência do nosso sistema judiciário, a corrupção de nossos políticos e desatenção da mídia.

Em uma das últimas páginas do livro de Suely Caldas, Jornalismo Econômico, ela conta algumas das lições que aprendeu com as coberturas que fez. "A primeira delas, vejo reprisada em outros casos, nos últimos 18 anos, desde que o congresso retomou seu legítimo poder político. (...) Os parlamentares e suas CPIs só se interessam em apurar práticas de corrupção enquanto os holofotes permanecem acesos para eles. Na CPI do caso BR (1988), por exemplo, os trabalhos foram gradativamente diminuindo, depois foram suspensos e, por fim, esquecidos".

"Comecei a perceber também que funcionários, políticos e polícia, cada um com seu papel, costumam seguir um script teatral ao enfrentarem casos de corrupção praticados por homens públicos influentes e poderosos. Os políticos de oposição criam CPIs, fazem barulho, juram que os culpados serão punidos e nada acontece. A polícia finge investigar".

Quando um assunto deixa de ser apurado pelos jornalistas e entram na investigação policial, os jornais começam a ficar dependentes do que a polícia descobre. Estando ela envolvida no encobertamento dos casos de corrupção, a mídia acaba produzindo cada vez menos notícias e assim os assuntos vão morrendo.

Alguém lembra quantas CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito) existiram só nesses últimos 4 anos? Vou citar algumas só para requentar a memória. Tivemos a CPI do Mensalão, dos Sanguessugas, dos Correios, dos Grampos, dos Bingos, das ONGs, do Tráfico de Armas, da Biopirataria e por último o do Apagão Aéreo. Agora me responda: alguém foi punido? Quais foram essas punições? Qual foi o resultado de toda a investigação? A resposta é apenas uma: ninguém sabe.

Enquanto os politicos armam o circo em torno de assuntos que deveriam ser resolvidos apenas pela Polícia Federal, diversas leis e projetos importantes ao país deixam de ser votados no Congresso e no Senado, já que os políticos estão interessados apenas em aparecer na mídia e "tentar" resolver questões que não lhes competem.

Por outro lado, nós, os bobos da corte, voltamos a dar créditos a esses políticos que saem culpados e impunes, num ato que eu chamo de ignorância coletiva. A prova disso foram os eleitos nas últimas eleições e que estavam envolvidos com o Mensalão e Sanguessugas.

Os últimos escândalos da política acabaram morrendo na mídia e na lembrança do povo, que, com as eleições, prova que tem o governo que merece.

sábado, 20 de outubro de 2007

A Floresta do Mundo


Por Léo Marques

Há exatamente um ano o ministro do meio ambiente da Inglaterra, David Miliband, lançava uma proposta no parlamento para privatizar a floresta amazônica. O então primeiro ministro na época, Tony Blair, apoiou a iniciativa. Aquele foi um primeiro movimento mundial para a tomada da Amazonia. Eles negaram qualquer coisa desse tipo, eu não acredito.

Ao longo do século XX dispertamos a atenção do mundo pela grandiosidade de nossas riquezas naturais. Temos a maior floresta do mundo (Amazônica), a maior planice alagada do mundo (Pantanal), o maior rio do mundo (Rio Amazonas), a maior reserva subterranea de água doce do mundo (Aqüífero Guarani) e a maior diversidade de animais e vegetais do planeta. Apesar disso, conduzimos nossas reservas de forma a dar fim a tudo que temos de riqueza natural.

Trago esse assunto novamente porque a retomada do crescente aumento do desmatamento e o consequente descuido com a nossa floresta pode ser mais um aliado aos interesses dos países ricos do norte. Não seria absurdo temer pelo futuro do nosso país. Uma terceira ou quarta guerra mundial não vai demorar muito para acontecer. Os países desenvolvidos possuem cada vez menos recursos naturais e os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento cuidam muito mal deles. Haverá uma busca enlouquecida por esses recursos, fundamentais para o equilíbrio da terra e a sobrevivência humana.

Claro que nosso descuido não justifica uma intervenção mundial, mas se continuarmos do jeito que está, seremos atacados de forma legitima com a desculpa de estarmos destruindo o pouco que resta da natureza. Falta de água, por exemplo, é uma realidade já vivida por muitas famílias no mundo.

Outra coisa que me angustia é a possível ganância por trás dessa proteção. Muitos podem não saber, mas existe, em uma das reservas indíginas da floresta amazônica, a maior reserva de diamantes do mundo. Será que um dia irei cobrir, aqui mesmo no Brasil, mais uma guerra mundial?

O Interior é aqui



Por Léo Marques

O que vou falar não é novidade para muita gente, mas vai embasar o que vem depois. Salvador é a terceira maior capital do país, a maior do Nordeste. Cidade turística, ela é o segundo maior destino para o turismo de lazer. Suas belas praias, arquitetura antiga e cultura forte atraem gente do mundo todo. Apesar de tudo isso, desse potencial, em termos de lazer, Salvador peca pela falta de suporte àqueles que querem desfrutar da noite soteropolitana.

Sair depois de meia noite para jantar, ir a um barzinho ou café pode ser um transtorno e terminar num fim de noite sentado em casa, comendo pipoca e assistindo filme. Sei que é um pouco forçado comparar essa mera cidade provinciana à cidade de São Paulo. Mas quando se fala em noite, a comparação se torna inevitável. Aquela sim é uma cidade que merece o título que tem. São Paulo, com suas ruas super movimentadas a luz do dia, a noite se torna tranqüila, mas não menos agitada. Ela realmente não para. Seus restaurantes, bares e cafés permanecem abertos sempre. Você pode sair andando pelas ruas frias da madrugada paulista que sempre vai encontrar alguém vindo ou indo.

Mas voltando a nossa realidade regional, tudo se torna muito decepcionante. Salvador não está preparada para receber aqueles turistas que vêm dispostos a curti-la em sua integridade e sem restrições de horário. Esquece que boate não é o único meio de diversão e de aproveitar a noite com os amigos, ou companheiro/a. Os visitantes, e soteropolitanos, querem mais. Querem pegar o carro, ou sair andando pelos bairros, normalmente lotados de dia, e vê-los funcionando a todo vapor.

Os empresários e, a própria população da capital baiana, não estão acostumadas ao ambiente noturno, se comportam como cidades pequenas, em que o comércio e as principais atrações fecham no máximo as dez da noite. Aqui em Salvador o horário se estende um pouco mais, porém, pouco para quem pretende voltar para casa as quatro da manhã. Talvez a falta de coragem dos empresários nesse tipo de investimento seja sustentada pela fato de Salvador ter a segunda menor renda per capita dentre as capitais do país.

Quem se aventura provavelmente vai rodar muito e não encontrar nada, pelo menos aquilo que esteja procurando. Depois disso, vão-se todos bater com a porta na cara, e terminar no Habib's, comendo esfihas e encontrando as mesmas pessoas que, por falta de opção, depositam ali suas últimas esperanças de curtir a noite de Salvador.

E nossa elite continua branca


Por Léo Marques

É engraçado como falamos em direitos, em que proclamamos o direito. "Todo mundo tem direitos iguais perante a lei". Creio que seja exatamente justiça o que está faltando para os nossos direitos. Quando olho nas ruas e vejo crianças sentadas nas marquises, fazendo malabares ou vendendo balas, fico pensando o quanto elas já perderam, o quanto elas já deixaram de aprender na escola para aprender nas ruas. Pior ainda para aqueles que optam por ganhar dinheiro não para sustentar seus ossos em pé, comprando alimentos para si e para a família, mas para sustentar o vício e a violência em índices astronômicos.

É interessante como a nossa elite ainda continua branca, cercada em seus castelos com muros cada vez mais altos. Esta mesma elite, ao qual de certa maneira me enquadro, está se isolando e perdendo a paixão pelo contato que tanto marca o povo brasileiro, sofrendo o efeito de uma reação que ela mesma causou.

Para constatar como nossa elite continua branca, basta ir aos desfiles de moda, as boates mais requintadas da cidade, aos bons restaurantes e aos colégios particulares de excelência. Moro numa cidade essencialmente negra, composta por um caldeirão cultural que faz de Salvador um dos locais mais visitados deste país. Mas parece que essa mesma cidade, rica em cultura, fecha os olhos para o que está a sua volta. Continuamos com medo, caminhando com olhares assustados, aflitos e angustiados com o que pode nos acontecer a cada vez que viramos uma esquina.

"Isso é um assalto, me passa tudo mauricinho". Assim nossas elites percebem que apesar dos muros e carros, estamos expostos a sofrer algum tipo de violência a qualquer momento. "Não tenho nada aqui", é o que diz o menino assustado, criado num mundo cercado de proteções. "Me passa tudo, se não eu te furo", e com um golpe no estômago nossa elite vai se acuando e chorando. Não percebe o quanto caminhamos para longe de um convívio pacífico, sem violências. Mesmo sofrendo todos esses pesares, tapamos nossos ouvidos, fechamos nossos olhos e nos trancamos em casa para chorar e esperar mais um assalto.

A segurança só virá com uma maior distribuição de renda, com um apóio aos meninos que representarão o futuro do nosso país. Educação, Educação, Educação. É nessa tecla que temos que bater. Mas não basta enfiar as crianças nas escolas, temos que oferecer um ensino de qualidade e parar de querer concentrar as atenções na ponta do sistema. As universidades servem quase que exclusivamente as nossas elites. Temos que fortalecer as bases do processo, para evitar meninos ignorantes sem perspectiva de vida.

Refazendo...

Bom, como eu não estava mais conseguindo ter acesso ao meu outro blog, tive que fazer um novo. Prometo não esquecer mais a senha.

Neste espaço quero postar artigos, reportagens e fazer comentários de algo que ache relevante.

Espero que aproveitem bem o espaço. Aceito críticas e sugestões.

Sejam bem vindos!