sábado, 14 de março de 2009

Entre o mar e a serra


Por Léo Marques


Ubatuba é um daqueles cenários paradisíacos que a gente costuma ver na TV. Suas belas praias, muitas desertas, suas montanhas cobertas por uma densa mata fechada fazem dessa cidade um recanto ideal para quem busca um visual encantador.

Último município do litoral norte de São Paulo antes do Rio de Janeiro, Ubatuba tem mais de 100 praias. Sua longa costa super recortada esculpiu enseadas de águas verdes e límpidas. São 104 km de costa com 17 ilhas e 8 ilhotas. A maior delas é a Anchieta, local para onde eram levados os presos políticos no século 17 e 18. A homenagem ao padre que catequizava os índios surgiu pela freqüência com que ele ia visitar o vilarejo e levar comida para as 100 famílias que moravam lá.

Entre os cenários mais conhecidos desse pedaço do litoral paulista está a Serra do Mar. Seus paredões de mata atlântica foram vistos por milhões de brasileiros na abertura da minissérie global A Muralha.

Para preservar toda essa floresta, foi criado em 1977 o Parque Estadual da Serra do Mar. São 315 mil hectares, constituindo a maior área de proteção integral de toda a Mata Atlântica. Este local protege cerca de um quinto de todas as espécies de aves que existem no Brasil e representa 80% do território do município.

O “sertão”, como é chamada a área ao pé da serra, guarda importantes atrações para o turista, como a Casa da Farinha. No final do século XIX o local era uma antiga usina de açúcar e álcool. Depois de abandonada, foi aproveitada a roda d’água para movimentar os aviamentos da Casa de Farinha, construída na década de 50. O local foi recuperado 1986 pelo Parque e hoje é considerado patrimônio histórico e cultural. Para chegar até ela é preciso pegar uma estrada de terra com acesso pelo Km 11 da Rodovia Rio-Santos (BR-101).

Não é só o mar que encanta em Ubatuba, os rios também são importantes atrações para quem visita a cidade, com destaque para o Córregos Duas Irmãs e Lagoinha. Todo esse ambiente permite mais um atrativo para o visitante: a observação de pássaros. O Jeep Tour do Picintour, localizado na praia de Picinguaba, é uma das formas de desfrutar dessas atrações. Aline Pereira de Souza é a pessoa responsável por esses passeios. Ela está autorizada pelo Parque a apresentar ao turista a Cachoeira do Tombador e Ubatubamirim, além da Casa de Farinha e algumas praias desertas como a da Bravo do Camburi.

Aline Pereira é uma das responsáveis pelos passeios no Parque Estadual da Serra do Mar

Trópico de Capricórnio

Ubatuba, em tupi-guaraní, quer dizer terra de muitas canoas ou de muitas canas. Ela é a primeira porção de continente a ser cortada pelo Trópico de Capricórnio e onde os primeiros raios de sol do verão dão o ar da sua graça. São mais de 450 anos de história, sendo palco de importantes episódios, como quando, após a confederação dos índios Tamoios, o padre Anchieta foi mantido “preso” na antiga aldeia de Iperoig.



Este local, inclusive, foi onde nasceu Ubatuba. É lá que está o centro da cidade e suas maiores atrações em termos de lazer urbano. Criado em 1991, o Projeto Tamar é um deles. Essa instalação é uma das poucas no Brasil em locais apenas de alimentação das tartarugas marinhas, devido a grande ocorrência delas na costa do município.

O destaque do Projeto Tamar de Ubatuba fica por conta do novo sistema de tanques de 100 mil litros de água marinha, com visores de vidro para observação das tartarugas submersas e uma praia artificial que enriquece o ambiente dos animais.

“Uma das nossas maiores preocupações se devem às tartarugas que ficam presas nas redes dos pescadores, mas fazemos um trabalho constante de educação ambiental com eles que tem dado um bom resultado, salvando a vida de muito desses animais”, conta Bruno Carvalho, biólogo responsável pelo Centro de Reabilitação de Tartarugas Marinhas.

Outro ponto que não deve deixar de ser visitado é o Aquário de Ubatuba. São mais de 100 espécies de animais como, piranhas, raias, moréias, tubarões, jacarés e pingüins, distribuídos em 24 tanques. O visitante poderá conhecer um pouco sobre os rios brasileiros e ecossistemas costeiros. Além disso, há o museu da vida marinha, com esqueletos de baleias, golfinhos, tubarões e outras espécies empalhadas, como a barata gigante – existente apenas nas profundezas escuras do oceano – e o baiacu, no momento exato de sua morte – quando ele incha. Tanto Aquário, quanto o Projeto Tamar estão na parte central da cidade e podem ser percorridos a pé.

Gastronomia

A gastronomia da cidade é uma atração a parte. Ao longo da praia de Iperoig é possível encontrar bons restaurantes especializados em várias cozinhas. Mas o forte mesmo fica por conta dos pratos feitos com peixes e frutos do mar. A culinária local guarda temperos e sabores que não devem deixar de ser experimentados.

Para celebrar tamanha diversidade gastronômica, todos os anos a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes realiza na cidade o Festival Gastronômico. Em sua 4ª edição, os restaurantes oferecem pratos especiais em condição promocional sempre no mês de agosto. Eles são elaborados por renomados chefs da região que junto com atrações e intervenções culturais completam o evento.

A infra-estrutura hoteleira oferece boas opções aos turistas, como o 4 estrelas Ubatuba Palace Hotel. O local possui um ótimo atendimento para quem quer curtir a paisagem sem abrir mão do conforto. Os hospedes desfrutam de massagens terapêuticas, estética – entre elas a redutora e a dreno-modeladora; podem jogar golf no mini-campo feito especialmente para os amantes desse esporte; além de desfrutarem de piscina, sauna e uma excelente cozinha.

O hotel costuma oferecer aos visitantes bicicletas para que eles possam explorar a cidade de uma maneira mais saudável. Essa, inclusive, é uma das formas de locomoção mais utilizadas pela população local, que possui 75 mil habitantes. O veículo tem tanta importância que ganhou faixas exclusivas pintadas no asfalto da rua, além das ciclovias espalhadas ao longo da orla.

A região oferece uma outra vantagem: ela está próxima de dois conhecidos recantos turísticos: Paraty e Ilha Bela. Subindo a Rio-Santos, sentido a capital carioca, a histórica cidade, sede da Festa Literária Internacional, estará a uma distância de 71 km. Já o arquipélago, conhecido pelas mansões e freqüência do público classe A e B, fica a 75 km ao sul.

Toninha Arruda Castro, uma das guias turísticas da cidade, explica que Ubatuba tem feito de tudo para se firmar como pólo turístico do país, sempre oferecendo atrações em períodos fora da chamada alta estação – de dezembro a fevereiro. Pelo menos belezas naturais os turistas terão o ano todo, esse já é um bom motivo para não deixar de conhecer esse pedaço de paraíso.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Paixão onipresente















Por Léo Marques

O brasileiro, pelo menos é o que dizem as más línguas, é apaixonado por três coisas: futebol, mulher e cerveja. As propagandas da bebida não cansam de explorar o tripé. Quando bate aquele calor, é a ela que muitas vezes recorremos. Nos casamentos, aniversários, batizados, Natal, Ano Novo, show ou nos finais de semana num barzinho. Ela está em todas as comemorações ou numa simples roda de amigos. Mas de que é feita mesmo a cerveja?

A composição básica possui três elementos: o malte, o lúpulo e a levedura. Esse composto é conhecido por Lei da Pureza Alemã que existe na Alemanha desde 1516, criada pelo Duque Guilherme 4º, na Bavária. Ela proíbe a utilização de qualquer ingrediente que não esteja entre os três citados acima e a água.

Mas no Brasil, além dessas matérias-primas, as grandes cervejarias utilizam milho e arroz na composição da bebida. Isso é um dos artifícios usados para baratear o custo. Esses fabricantes ainda usam conservantes ou estabilizadores de espuma. Dessa forma, o preço de cada cerveja sai das fábricas por R$ 0,60 a garrafa. Até chegar a nós, consumidores, há alguns acréscimos tarifários ao longo do caminho.

Segundo o Sindicato Nacional das Indústrias de Cerveja, o País possui a quinta maior produção do mundo, com 8,5 bilhões de litros/ano, perdendo apenas para a China (27 bilhões de litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Alemanha (10,5 bilhões de litros/ano) e Rússia (9 bilhões de litros/ano).

Apesar dessa produção e consumo elevados, chegando a 47,6 litros/ano por habitante, o brasileiro conhece pouco sobre a cerveja.

Infelizmente a fabricação do Brasil não está entre as melhores do mundo. Três nações dividem esse posto: a Alemanha, a Bélgica e a Inglaterra. “Todas elas são bem diferentes umas das outras, e todas são maravilhosas”, diz o cervejólogo Edu Passarelli. Por ser a cerveja alemã a mais conhecida do País e eles serem grandes consumidores de lagers (família do estilo pilsen), o brasileiro tende a achá-la melhor. “Mas conhecendo um pouco mais das outras duas, veremos que todas possuem grandes produtos”, complementa.

Edu, que é formado em gastronomia pela UniFMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas), em São Paulo, e especialista em Gestão de Negócios de Serviços de Alimentação pelo SENAC desvenda ainda um outro questionamento recorrente entre os apreciadores da “gelada”: a diferença entre o chopp e a cerveja. “O chopp nada mais é do que uma cerveja que não foi pasteurizada, ou seja, engarrafada. Está é uma denominação que praticamente só é utilizada no Brasil. Podemos ter “chopp” de diversos estilos de cerveja, mas o mais comum vem do estilo pilsen”.

As diferenças na bebida não param por aí. Apesar do tipo mais conhecido ser a dourada, a cerveja escura também é bastante consumida no Brasil. Inicialmente, a variação de cor ocorria devido à torrefação dos maltes utilizados na fórmula. Hoje, as grandes cervejarias costumam utilizar caramelo de milho para escurecer. Isso acaba adocicando as cervejas escuras. Mas as variações na tonalidade da bebida não se restringem a esses dois estilos. Existem ainda as vermelhas, marrons e amarelas.




Mas a gelada precisa ser tão fria assim? Edu Passarelli acha que não. Para ele, a temperatura ideal depende muito do estilo da cerveja. “O frio inibe a nossa percepção de aromas e sabores, por isso é melhor optar por uma temperatura que varia entre 2°C a 5°C”. Uma pilsen de boa qualidade deve ser consumida entre 2°C e 4˚C. Já uma belgian ale, por exemplo, pode chegar a 10˚C.

Apesar da baixa qualidade na produção das cervejas mais consumidas nacionalmente, o Brasil possui boas microcervejarias que aplicam a Lei de Pureza. Muitas delas estão localizadas no sul do país, numa região apelidada de Vale das Cervejas Artesanais, em Santa Catarina. O aumento da importação da bebida também faz com que o consumidor tenha a oportunidade de provar o verdadeiro sabor dessa que é a paixão dos brasileiros: a cerveja.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Bom, fiquei muito surpreso e feliz quando soube que tinha ganhado dois selos de recomendação para o meu blog. Agradeço ao Ricardo Cazarino pela indicação. Vou repassar para três pessoas. Dentre elas o próprio Ricardo. Não como forma de agradecimento, mas pelo simples merecimento. O blog dele é show, merece ser lido e comentado.





Indicados

Palavras sem Fronteiras

Mind Walk

Meu mundo em Movimento

sábado, 9 de fevereiro de 2008

"Meu nome é desafio"


Conhecido pelo seu personagem no filme Ó pai ó, Lyu Árison vem demonstrando um talento nato no teatro. O ator e dançarino continua a fazer o papel da travesti Yolanda nos palcos. Atuando desde os oito anos, Lyu vive uma boa fase profissional. Em junho ele começa a gravar o seriado global que leva o mesmo nome do longa que o consagrou e tem planos de atuar numa produção internacional.

O Traficante de Informação fez uma entrevista com o artista pelo telefone. Veja o resultado dessa conversa.

Léo Marques - O que veio primeiro em sua vida, a dança ou o teatro?

Lyu Árison - Os dois surgiram ao mesmo tempo. Comecei fazendo dança aos oito anos de idade. Saia da Base Naval de Aratu e ia até o antigo Viva Bahia, no Pelourinho, que hoje se chama Balé Folclórico da Bahia. Meu professor, o José Carlos Arandiba, sempre me dizia que todo bailarino tinha que saber cantar, dançar e atuar. Por isso digo que os dois surgiram ao mesmo tempo em minha vida.

LM – Quando o Bando de Teatro Olodum começou a fazer parte da sua história?

LA - O convite para atuar no Bando do Teatro Olodum veio depois do filme Ó pai ó. Eu fui convidado pelo Sergio Braga para poder fazer a personagem Yolanda. Alguns atores homens tinham feito teste para o papel, mas Sergio dizia que eles não estavam conseguindo chegar à essência da personagem.

Acredito que eu tenha chegado onde ele queria, já que uma vez, quando estava interpretando Yolanda no teatro, o vi – na época ele já tinha morrido – na platéia aplaudindo de pé. Só consegui enxergar ele, não via mais ninguém.

LM - Você é espírita?

LA - Sou sim.

LM - E o que te motivou a fazer teatro?

LA - Eu sempre gostei de arte, desde criança. E acho que para ser um bom artista, tenho que ser completo, por isso faço tudo que pintar pela frente. Meu nome é desafio.

LM - Você continua encenando na peça Ó pai ó, que está em cartaz no Teatro Vila Velha, mas saiu do Bando de Teatro Olodum. Teve algum motivo especial para essa saída?

LA – Na verdade eu nunca fiz parte do Bando do Teatro Olodum. O pessoal já me convidou para integrar o “bando”, mas tem algumas coisas lá dentro que não gostei. Então prefiro ficar apenas fazendo participação.

LM - Em uma entrevista recente, veiculado no You Tube, você disse que estava fazendo um filme, mas que não poderia dizer o nome. Você continua guardando este segredo? Poderia falar um pouco sobre o seu papel nesse longa-metragem.

LA - Continuo sem poder dizer o nome. O filme é estrangeiro. Eu ia até contracenar com o ator Heath Ledger (personagem do filme Brokeback Mountain que morreu no último dia 22 desse mês). Estava combinado que eu ia fazer o papel de um guerreiro, mas depois da morte do Heath, não sei como vão ficar as filmagens.

LM - E como surgiu o convite para o filme?

LA - O diretor do filme me convidou através da Monique Gardenberg (diretora do Ó pai ó). É provável que as gravações comecem no final do ano.

LM - Você tem vontade de fazer novela?

LA - Quem não tem vontade? Eu quero fazer de tudo, dançar, atuar, tocar. Eu vivo para a arte.

LM - Ó pai ó vai ter um seriado. Quando começam as gravações?

LA - As gravações estão marcadas para junho, mas estou proibido de dar informações sobre isso.

LM - O que você acha que mudou depois de fazer a travesti Yolanda, neste filme?

LA - O reconhecimento. Depois de 20 anos fui reconhecido pelo meu trabalho.

LM - Houve muito assedio nas ruas? Como você lidou com isso?

LA - Ouve um pouco de exagero até. Às vezes tenho que sair disfarçado para ninguém me reconhecer. Mas não gosto dessas besteiras, sou do povo, gosto de andar livremente. Claro que a gente tem que ter paciência e jogo de cintura, afinal, estamos aí para isso. Fico muito feliz por ser reconhecido pelo meu trabalho.

LM - Depois do filme Ó pai ó, muita gente passou a confundir o personagem (travesti) com Lyu?

LA – Muitas pessoas confundem sim. Muita gente, quando me vê na rua, não me chama pelo meu nome, chama pelo personagem. Eu costumo frisar que Yolanda é apenas um papel, Lyu é que é o ator.

LM - A temporada de verão de Ó pai ó está terminando. Você vai continuar fazendo o papel de Yolanda nas próximas temporadas?

LA - Vou sim. Enquanto tiver Ó pai ó, estarei fazendo o papel de Yolanda. No mês de fevereiro ainda temos dois finais de semana de apresentações, uma no dia 16 e 17, e a outra no dia 23 e 24.

LM - Gostaria de deixar alguma mensagem?

LA - Esse mundo precisa de paz. E aqui no Brasil precisamos de políticos mais comprometidos com a população. Só vejo roubalheira.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Malê Debalê além do carnaval


O Malê Debalê é uma dos blocos afros mais antigos de Salvador. Fundado em 29 de março de 1979, a entidade nasceu no bairro de Itapuã com o intuito de ajudar a população carente local e de levar o carnaval a um lugar distante do centro. O movimento negro, que começava a se fortalecer na época, foi o principal motor para o crescimento do Malê. O festejo de Momo é o momento de consagração para o bloco. A dança e vestes traduzem o tema escolhido. Neste carnaval, os 120 anos da Lei Áurea são lembrados de forma crítica, já que a libertação dos escravos não foi seguida de uma contrapartida governamental de ajuda àquelas pessoas.

Para falar um pouco sobre a história e os projetos sociais realizados pelo Malê Debalê, o Traficante de Informação conversou com um dos fundadores e vice-presidente do bloco, Miguel Arcanjo.



Léo Marques - Como surgiu o Malê Debalê?

Miguel Arcanjo - A primeira proposta era criar uma entidade dentro de Itapuã que não só representasse o bairro no carnaval de Salvador, mas também como se fosse um agente de ação do movimento negro na Bahia. Aí começamos a juntar elementos físicos e culturais para criar a base para o surgimento, o fortalecimento e, conseqüentemente, a sobrevivência do Malê Debalê.

LM – Pelo Ilê Aiê ter sido o primeiro bloco afro, podemos dizer que influenciou o Malê?

MA - De uma certa forma sim. Nós já fazíamos parte de movimentos negros muito antes do Ilê Aiê. Havia muita influência americana dos panteras negras, o movimento Black Power e o soul music.

Mas nessa época também descobrimos que a metodologia e a prática americana não eram a do negro brasileiro. Então pegamos algumas coisas que ajudariam nesse fortalecimento porque nossa simbologia de resistência se resumia única e exclusivamente a Zumbi dos Palmares.

LM - Vocês têm um trabalho social em Itapuã. Fale um pouco sobre ele.

MA - As comunidades pobres, leia-se comunidades negras, são muito carentes. Mas quando a gente fala sobre carência, não é de produtos de consumo, é a de referências. É ter, por exemplo, uma pessoa ou um líder na comunidade à quem se espelhar.

No caso de Itapuã, nós nos tornamos a referência, embora nosso poder seja imensamente pequeno para desenvolver grandes ações comunitárias. Buscamos contribuições voluntárias de profissionais liberais, de outras ONGs e de órgãos do governo.

Não estamos lá para formar artistas. A responsabilidade maior é formar cidadãos e melhorar a auto-estima deles, incentivando-os a irem à luta.

LM - Mas como vocês colocam isso em prática?

MA - Nós temos um curso de percussão, dança e capoeira. Isso é o básico. Fora isso, fizemos convênios com a Secretaria Municipal de Educação (resgate cultural negro desenvolvido dentro da rede pública municipal de ensino) e com o CEFET (informática). Recentemente também demos andamento a um trabalho com a Secretaria de Combate a Pobreza, com apoio do Estado e com a UFBA, onde formamos profissionais de dança num curso de extensão. Buscamos outros convênios nacionais e internacionais.

LM - Me fale sobre o carnaval desse ano. Qual será o tema?

MA - Nós vamos levar a avenida um tema interessantíssimo: “Áurea, 120 anos, e nós?”. É um questionamento que fazemos sobre a abolição da escravatura. Vamos tentar mostrar que a escravidão até nossos dias é algo forjado e que poucos perceberam. Os negros foram simplesmente jogados na rua. Não sabiam ler, escrever, não tinham profissão, foram escravos sempre e só sabiam servir ao senhor. Nessa situação, era sempre explorado. A história foi se proliferando até chegar ao ponto em que chegamos atualmente. E aí a gente pergunta: a partir de quando essa lei vai começar a valer mesmo?

Apesar de ser um tema político, ninguém vai pra rua com cartazes e faixas. Dentro dessa festa vamos mandar o nosso recado de forma poética, colorida e linda.

LM - Como é escolhida a rainha do Malê Debalê?

MA - O Malê é o único bloco que escolhe a rainha e o rei também. É um trabalho feito com o mesmo galmour de quando eram eleitos os reis e rainhas africanos. É uma festa com essa mistura afro-latina-baiana. Temos 15 candidatas e 10 candidatos que são escolhidos na sede do Malê.

LM - Baseado nesse tema, como vocês imaginaram a fantasia?

MA - Nós temos o nosso artista plástico Ives Coalha, que faz a estamparia do tecido. São 15 alas. Cada uma fica com uma temática e desenvolve dentro da sua ala roupas características que estejam inseridas no contexto da mensagem que queremos passar.

LM - Quais serão os dias que o Malê desfila e onde?

MA - Vamos sair na sexta com o Malê e outras tribos. Nesse dia sai o pessoal das alas e da banda. É o dia da festa deles. No sábado e na segunda, o Malê é tradição. Vem completo, com suas alas, fantasias, banda percursiva, cantores, tudo como manda o figurino.

No domingo tem o Malêzinho de Itapuã. Pegamos a criançada e os adolescentes com quem desenvolvemos nosso trabalho social durante todo o ano, e os colocamos no bloco durante o domingo em Itapuã.

LM - Foi difícil conseguir patrocínio este ano?

MA - Patrocínio para bloco afro sempre foi uma coisa um tanto truncada. Ninguém se preocupa se um artista famoso pegou R$ 5 milhões, mas se incomodam se o Malê levar R$ 500 mil. Nós temos todo o trabalho social que já te disse aqui, mas na hora de transformar isso em patrocínio, não acontece. É como se nós fossemos os menores, quando nós somos os maiores.

A Petrobras vai dar esse ano R$ 1,2 milhão para os blocos do pólo de entidades negras. Malê, Ilê, Olodum, Muzenza, Cortejo Afro, Mocambi e Negroides. São sete entidades.

LM – Um milhão e duzentos mil reais para dividir entre sete blocos? Não é pouco, não?

MA - Exatamente. Só o carnaval do Malê Debalê está orçado em R$ 600 mil. Isso a gente doando praticamente 90% das fantasias, sendo que pagamos, assim como os outros artistas, os mesmo 70, 80 mil por um trio.

E ainda tem uma diferença. Enquanto a fantasia do Malê vem com pano trabalhado, todo pintado, com sandália e tudo o mais, custando individualmente R$ 50, um abadá custa R$ 10. Mesmo com todas essas diferenciações, o patrocínio chega primeiro lá.

LM - Então vocês estão insatisfeitos com o valor que chegou até vocês?

MA - Meu pai tinha um ditado popular que dizia o seguinte: "antes um olho curto do que cego de tudo". Mas não podemos dizer que estamos satisfeitos. Não estamos. O que consideramos é a intenção do novo Governo de corrigir isso de uma forma gradativa. Se o pensamento for esse, está tudo bem.

domingo, 13 de janeiro de 2008

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Último Capítulo

Nos primeiros quatro meses de 2007, já aos 21 anos, ela teve contato com outras drogas, fora a maconha e a cocaína. Foi quando experimentou o ecstasy e o LSD. Luana tem mais medo dessas duas drogas do que das que usava até então. Seu maior receio é a propriedade sintética que elas possuem e o fato de serem fabricadas para gerar cada vez mais dependência.

“Com essas outras drogas, você tem alucinações. Uma vez eu inventei de usar LSD em casa e vi a parede e o guarda-roupa vindo em minha direção, como se estivessem me imprensando. Tive que andar pela casa para ver se passava. Achei aquilo horrível”.

Como os preços variam, normalmente, o comprador tem mais de uma fonte para conseguir a droga. Para ter acesso à cocaína, ela vai à Ladeira da Barra, trecho nobre do bairro da Barra. Um conhecido rico, morador de um dos altos e luxuosos prédios do local, é o seu fornecedor. Ele vende um grama por 20 reais. Uma certa vez, Luana chegou a comprar 22 gramas por 400 reais, ganhando dois gramas de brinde.

No caso da maconha, há mais oferta em lugares conhecidos, até porque é uma droga usada por ela há oito anos. O modo considerado menos perigoso e mais confortável é o disk drogas. Ou seja, o cliente liga e pede a quantidade que quiser. O “empresário” da droga a leva até a casa da pessoa, sem nenhum custo adicional e de uma forma totalmente discreta.

A cannabis também pode ser comprada na mão de amigos, de vizinhos, de uma forma também tranqüila e segura. A boca de fumo, na favela, é uma das alternativas usadas por Luana quando as outras duas opções estão sem a mercadoria. Essa forma é evitada a qualquer custo, mas já ocorreu por três ou quatro vezes. A vendedora, uma velha, atende seus clientes reservadamente, complementando a renda da família com a venda de maconha a R$ 2,50 o cigarro. Há também as da Gamboa e do Calabar, onde Luana já esteve por duas vezes, e encontrou crianças andando armadas nas ruas.

Já outras drogas são mais difíceis de comprar, até porque quem tem o “canal” não diz. Ela tem medo de se deixar envolver e prefere nem saber onde consegui-las. Usa apenas quando está com os amigos, em momentos de festa e sempre de graça.

Contudo, às vezes, ela cansa de usar drogas. Foi o que aconteceu nesse carnaval de 2007, quando viajou para uma capital do Nordeste. Foram 11 dias limpa, como ela mesma fez questão de frisar. Sua decisão levou em conta a falta de vontade em se drogar. Como sabia que se ficasse para o carnaval usaria várias drogas, preferiu curtir o período de um modo diferente, passando uma semana e meia sem fumar cigarro de tabaco, de maconha, sem bebidas alcoólicas e sem cheirar nada.

Não é preciso uma ocasião especial para deixar de usar maconha. O domingo, quando está com os pais, costuma ser saudável, sem nenhuma substância psicoativa. E ela consegue passar o dia bem, sem nenhuma vontade excessiva de usar.

Luana tem uma explicação sobre o que a levou para outras drogas mais pesadas que a maconha. Ela desenvolveu sua própria teoria e acredita que isso foi fundamental para o uso de outras substâncias psicoativas.

“Uma droga acaba levando a outra. Não por achar a outra droga fraca, porque a sensação de uma é completamente diferente da outra. Mas você acaba tendo acesso a outras drogas, e, por conviver com pessoas que usam não só maconha, mas diversos tipos de drogas, acaba se criando uma curiosidade, e saciá-la é fácil, estando nesses ambientes”.

FIM

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

“Uso porque gosto e me dá muito prazer” - Capítulo 7

Atenção, atenção!! Os textos intitulados “Eu uso porque gosto e me dá muito prazer” é uma seqüência, então só vai entender quem ler desde o início. Segundo: É uma história real, é um perfil de uma pessoal real, que fez tudo isso exatamente como está escrito. Terceiro: O texto não é a favor, nem contra o uso de substâncias psicoativas. Eu apenas relato um fato e coloco os prós e os contras dessas substâncias e os motivos que levaram esta jovem (Luana - nome fictício) a usar drogas ilegais. E mais uma coisa. Para aqueles que bradam tanto porque essa jovem usa isso, ou aquilo outro, as bebidas alcoólicas que vocês usam também são substancias psicoativas. A única diferença é que elas são legalizadas. Por sinal, são as que mais matam no mundo. Explicações feitas, vamos dar continuidade ao perfil.


“Uso porque gosto e me dá muito prazer”

Luana estava sentada no sofá da sala da casa de uma amiga e conversava animadamente com os amigos. A casa, cheia, parecia uma festa. Na verdade, era apenas mais uma reunião de fumantes da cannabis. A fumaça exalava pela casa como um incenso, impregnando os tecidos com o cheiro forte e inconfundível da erva.

Os olhos vermelhos se enchiam de lágrimas. Uma das janelas da casa deixava passar um ar tímido. O grupo, reunido em círculo, conversava sobre tudo. Problemas do país, sobre os últimos acontecimentos, sobre as próximas festas, e todos riam, riam muito.

A conversa foi interrompida pelo barulho da campainha. Alguns ficaram temerosos; talvez fosse algum vizinho reclamando do cheiro que saía pela janela, invadia a rua e os apartamentos próximos. Os presentes no local sabiam que não eram os pais da dona do apartamento. Ela morava sozinha, apesar de sua casa sempre estar cheia de amigos e desconhecidos, os quais buscam ali um refúgio seguro e um ponto de encontro da galera.

O rosto encostou no olho mágico para saber quem era. O porteiro não havia interfonado para avisar sobre a subida de ninguém, isso aumentou ainda mais a tensão. Depois de destrancada, a porta foi aberta de supetão, quase como num ato de invasão.

Luana estava no sofá com mais quatro amigas. A garota que acabara de entrar olhou para todos e sorriu, dando um “oi geral” para a galera. Eram todos amigos naquele momento. A ansiedade e a intimidade levaram a “invasora” a entrar na sala um pouco esbaforida.

Em sua mão, ela trazia algo que ninguém sabia o que era e que não foi revelado num primeiro momento. Apenas caminhou em direção às quatro meninas sentadas calmamente no sofá e abriu a boca de cada uma. Como um cachorro a receber vitaminas pela boca, ela abriu o maxilar das amigas e colocou uma pílula na língua de todas.

“Esse é para você. Esse aqui para você. Abre a boca, Luana, você vai gostar. E esse é seu”, dizia a amiga que colocava cada pílula de forma cuidadosa.

Nenhuma das meninas até então estava entendendo o que era aquilo, mas, diante da empolgação da amiga, fizeram o que ela pedia. Todas engoliram a seco um comprimido inteiro de ecstasy.

Luana começou a sentir um fogo brotar em seu corpo. Todo ele havia se transformado em uma grande zona erógena, onde cada toque tinha sua sensação multiplicada. O aumento do apetite sexual era perceptível no corpo. Essa libido acentuada durou algumas horas.

Não foi o caso naquele momento, mas alguns estudiosos, como Milton Santos Lambert, em seu livro “Mitos e Realidade”, dizem que há dificuldades em se alcançar o orgasmo quando se está sob o efeito do ecstasy. No caso dos homens, além desse problema, a substância pode causar alterações na ereção.

Essa foi a primeira das três únicas vezes que Luana usou ecstasy. O ano foi o de 2007, e a “droga do amor”, como é chamada, não a conquistou.

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//Fique atento para o próximo e último capítulo.